BOA VISTA 136 ANOS| Das margens do rio Branco a uma cidade planejada, bela e acolhedora

Parque do Rio Branco, área onde a cidade surgiu: hoje Boa Vista conta com mais de 485 mil habitantes
 

De um povoado ribeirinho a uma cidade planejada, organizada e repleta de atrativos turísticos e culturais. Assim é Boa Vista, a capital de Roraima, que neste 9 de julho completa 136 anos de elevação à categoria de município, consolidando-se como um lugar acolhedor para moradores e visitantes de diferentes regiões do Brasil e do mundo.

A cidade foi criada por decreto do governador do Amazonas, Augusto Ximênes de Villeroy, em 9 de julho de 1890, quando ainda integrava o território amazonense, a partir do antigo povoado da Freguesia de Nossa Senhora do Carmo. Sua história, no entanto, começou muito antes, no contexto da ocupação do Vale do Rio Branco, impulsionada pela pecuária e pela necessidade de abastecer centros como Manaus durante o ciclo da borracha.

A localização estratégica na fronteira contribuiu para o interesse do poder público em estimular o povoamento da região.

“Há um destaque para a produção pecuária no chamado Vale do Rio Branco e um processo de colonização ainda tímido. Não cresceu como se esperava, mas foi o suficiente para que, em 1830, surgisse uma fazenda chamada Boa Vista, fundada por Inácio Lopes Magalhães, à margem direita do Rio Branco”, afirmou o historiador Victor Mattioni.

Antes da chegada dos portugueses, a região era habitada por populações indígenas, como os povos Paravilhana, conforme evidências encontradas em sítios arqueológicos urbanos e rurais. O deslocamento ocorria principalmente pelos rios, e as dificuldades logísticas contribuíram para o fracasso de diversos aldeamentos e povoados iniciais.

Sede da Fazenda Boa Vista, que deu origem à cidade


A trajetória de Boa Vista também inclui marcos importantes, como a criação do Território Federal do Rio Branco, em 1943 — quando a cidade foi escolhida como capital —, e a elaboração do Plano Quinquenal Territorial, a partir de 1944. O projeto urbanístico, executado pela empresa do engenheiro Darcy Aleixo Derenusson, a partir de 1946, transformou a pequena vila de cerca de 1.800 habitantes e 20 quadras irregulares em uma das poucas capitais planejadas do Brasil, ao lado de Belo Horizonte e, posteriormente, Brasília.

É um projeto que deu certo, digamos assim, em meio às dificuldades, pois na década de 1940, nós não tínhamos a BR-174, por exemplo, para a chegada de materiais. Eles vinham pelo rio Branco”, destacou Mattioni.


Cidade limpa, organizada e segura

Vista aérea de Boa Vista: cidade vibrante, cheia de oportunidades e atrativos de cultura, turismo, lazer e empreendedorismo


Hoje, Boa Vista conta com população estimada em mais de 485 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 50 bairros e loteamentos, além de uma extensa rede de praças e balneários. Em pesquisa do Instituto Veritá, feita em dezembro de 2025, a capital conquistou o primeiro lugar entre as capitais brasileiras na avaliação dos serviços públicos, com nota média 8 para limpeza urbana, conservação de espaços públicos e coleta de resíduos.

Entre os principais atrativos turísticos estão o Parque do Rio Branco, que reúne o Mirante Edileusa Loz, a Selvinha Amazônica e a Orla Taumanan; o Complexo Ayrton Senna; o Teatro Municipal de Boa Vista; o Parque Ecológico Bosque dos Papagaios; e diversas praças distribuídas por toda a cidade.

A capital também figura entre as dez mais seguras do país, segundo o Anuário 2025 de Cidades Mais Seguras do Brasil, com redução da taxa de mortes violentas de 31,6 por 100 mil habitantes, em 2023, para 23 por 100 mil habitantes, em 2025. Em 2025, ainda liderou o ranking das capitais com maior liberdade para empreender, conforme levantamento do Governo Federal.

Mattioni ressalta o crescimento recente impulsionado por diversos fatores, incluindo concursos públicos, o turismo e as migrações. “Nos últimos anos, Boa Vista conta com um crescimento, assim como já havia apresentado nos anos 80, em termos percentuais quando comparado com outras capitais. Por isso que nós podemos olhar para Boa Vista hoje e ver nas chamadas Zona Leste, Zona Oeste, na área norte, vários loteamentos e também um processo de verticalização, ou seja, de edifícios para condomínios e novas moradias, por exemplo” (leia a entrevista completa logo abaixo).

Aos 136 anos, Boa Vista consolidou uma trajetória marcada pelos desafios de ser a capital mais ao norte do Brasil. Apesar das dificuldades históricas relacionadas à logística, ao isolamento e à condição de cidade de fronteira, o município demonstrou capacidade de crescimento e segue em expansão, com melhoria contínua nos indicadores de qualidade de vida. Hoje, apresenta-se como uma cidade organizada, tranquila e acolhedora, atrativa para as famílias e com atenção crescente à formação das novas gerações.


Abaixo, a entrevista completa com o historiador Victor Mattioni:


PORTAL BOA VISTA - Quais foram os principais fatores que levaram à fundação de Boa Vista?

Victor Mattioni - Podemos destacar três fatores principais. No contexto do século XIX, vivia-se o auge do ciclo da borracha, o que gerou a necessidade de abastecer cidades como Manaus. Nesse cenário, destacou-se a produção pecuária no então Vale do Rio Branco, além de um processo de povoamento e colonização ainda tímido. Embora esse crescimento não tenha ocorrido na intensidade esperada, foi suficiente para que, em 1830, fosse fundada a Fazenda Boa Vista por Inácio Lopes Magalhães, na margem direita do Rio Branco, onde hoje está localizada a cidade de Boa Vista.

Outro marco importante foi a criação da Freguesia de Nossa Senhora do Carmo, em 1858. Posteriormente, em 9 de julho de 1890, ocorreu a criação do município de Boa Vista do Rio Branco, desmembrado do município de Moura, quando a região ainda pertencia ao Estado do Amazonas.

Também é importante destacar a localização estratégica de Boa Vista. Por estar situada em uma área de fronteira com outros países, a região despertou o interesse do governo imperial e, posteriormente, da República, que passaram a incentivar projetos de ocupação e colonização para fortalecer a presença brasileira nessa porção do território.


PBV - Como era a região onde Boa Vista foi fundada antes da chegada dos pioneiros?

V. M. - Temos evidências, por meio de sítios arqueológicos urbanos e rurais, da ocupação da região por diferentes povos indígenas. Algumas dessas etnias já não existem mais, como os povos Paraviana, que habitavam a margem direita do Rio Branco, além de outros grupos indígenas. Esses registros arqueológicos permitem compreender melhor a presença dessas populações antes da ocupação não indígena.

Na época, o deslocamento pelo Vale do Rio Branco ocorria principalmente pelos rios. O transporte do gado para Manaus, por exemplo, era feito pelo Rio Branco, a partir de Caracaraí, que funcionava como cidade-porto, especialmente durante o período de cheia.

A região também enfrentava grandes desafios logísticos e de comunicação, fatores que dificultavam a fixação de povoados. Essas dificuldades contribuíram para o fracasso de diversos aldeamentos laicos e de povoações fundadas por ordens religiosas. Apesar disso, o núcleo que mais tarde daria origem a Boa Vista conseguiu se consolidar em meio a esse contexto adverso, tornando-se o principal centro de ocupação e colonização da região.


Victor Mattioni, historiador: "O crescimento da cidade reforça a importância de preservar o patrimônio histórico e cultural" |FOTO: Elidiane Mattioni



PBV - Na sua visão, quais foram os momentos históricos mais marcantes na trajetória de Boa Vista ao longo desses 136 anos?

V. M. - O primeiro grande marco foi a fundação da Fazenda Boa Vista, em 1830, por Inácio Lopes Magalhães. A sede da fazenda ainda existe e atualmente abriga o bar e restaurante Meu Cantinho. Outro momento importante foi a atuação das ordens religiosas, especialmente os beneditinos, que chegaram com mais força no início do século XX e contribuíram para a implantação das primeiras estruturas de educação, saúde e para as discussões sobre o planejamento urbano da cidade.

Também merece destaque a criação do município de Boa Vista, em 9 de julho de 1890, por ato do governador do Amazonas, Augusto Ximeno Villarroy. Na época, Boa Vista ainda fazia parte do Estado do Amazonas. Outro marco decisivo ocorreu em 1943, com a criação do Território Federal do Rio Branco. Foi nesse momento que Boa Vista passou a ser a capital do território. Já a partir do final da década de 1970, com a abertura da BR-174, a cidade experimentou um novo ciclo de crescimento impulsionado pela migração de pessoas em busca de melhores condições de vida e de oportunidades no garimpo. Nos anos 1990 e início dos anos 2000, Boa Vista passou a atrair um novo perfil de migrantes, interessados principalmente na oferta de concursos públicos, característica que permanece até hoje. 

Outro aspecto histórico relevante é o planejamento urbanístico da cidade. Quando Boa Vista se tornou capital do Território Federal do Rio Branco, surgiu a preocupação de conferir à cidade a estrutura e a aparência de uma capital. Na década de 1940, foi elaborado o plano urbanístico de Darcy Aleixo Derenusson, da empresa Riobrás, tornando Boa Vista uma das poucas capitais brasileiras planejadas, ao lado de cidades como Belo Horizonte. Esse planejamento antecedeu a construção de Brasília e foi implantado em condições bastante desafiadoras, já que, naquela época, a BR-174 ainda não existia. Os materiais chegavam exclusivamente por via fluvial, durante o período de cheia do Rio Branco, e as obras contaram principalmente com mão de obra local. Esse é um dos aspectos que tornam a história urbanística de Boa Vista especialmente singular.


PBV - Que legado histórico e cultural você acredita que Boa Vista deve valorizar para seu futuro?

V. M. - Nos últimos anos, Boa Vista voltou a registrar um crescimento populacional expressivo, assim como ocorreu na década de 1980. Esse avanço está relacionado, principalmente, ao fluxo migratório de venezuelanos, à chegada de pessoas atraídas pelos concursos públicos e à busca por melhor qualidade de vida.

Além disso, a cidade apresenta grande potencial de expansão, especialmente nos setores da construção civil e do mercado imobiliário. Esse desenvolvimento pode ser observado na expansão de loteamentos nas zonas Leste, Oeste e Norte, bem como no processo de verticalização, com a construção de edifícios residenciais e condomínios.

Esse crescimento reforça a importância de preservar o patrimônio histórico e cultural de Boa Vista, conciliando desenvolvimento urbano com a valorização da identidade construída ao longo de seus 136 anos de história.

 

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