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| Obra reflete oito anos de deslocamento da Venezuela ao Brasil e a busca por pertencimento |FOTO: Sthefany Martins |
A banda Paraquedas lançou na última sexta-feira (8) o EP “Eu não era daqui”, com quatro faixas disponíveis em todas as plataformas digitais. marcado pelo rock alternativo, o novo trabalho traduz a experiência de migração e a sensação de não pertencimento, sobretudo vivida pelo vocal e guitarrista Misael Rodríguez, que deixou a Venezuela há oito anos e hoje está radicado em Florianópolis (SC).
O EP surge após um período de adaptação, mudanças e reconstrução pessoal e artística. A banda transforma memórias de saudade, deslocamento e resistência em composições intensas. O projeto mantém influências de bandas como Fresno e Twenty One Pilots, mas desenvolve identidade própria dentro do gênero.
Fundada em 2018, a Paraquedas é formada por Misael Rodríguez (vocal e guitarra), Simon Romero (bateria), Caio Zanis (guitarra) e Gabriel de Angelis (baixo). Com a ida de Misael a Florianólis, a banda contará com novos integrantes.
Em outubro de 2025, o grupo já havia antecipado o single “Falar de Amor”, que mescla emocore e rock alternativo ao tratar do fim de um ciclo e do processo de libertação. Misael Rodríguez descreveu o processo criativo como algo contemplativo.
“É como olhar pela janela de um ônibus em movimento e reconhecer paisagens que já ficaram para trás, mas que ainda continuam vivendo dentro da gente”, afirmou.
Ele destacou a faixa “Retroceder”, composta em 2020 durante a quarentena da Covid-19, como um marco. “Ela fala muito sobre parar por um instante, olhar para o passado com honestidade e aceitar tanto os acertos quanto os erros antes de seguir em frente”.
A mudança para Santa Catarina representou novo desafio, segundo Misael. Ele mencionou que, após viagens com outra banda em 2022 e 2023, percebeu maiores oportunidades para música autoral fora de Boa Vista.
“Sair de Roraima era algo que eu já sentia há bastante tempo que precisava acontecer. Aqui no sul do país, mesmo começando de novo, sinto exatamente o contrário: sinto que ainda existe muito caminho pela frente”.
- Mais informações sobre a Paraquedas e seus lançamentos podem ser obtidas no perfil oficial no Instagram @paraquedasbanda.
Abaixo, confira nosso breve bate-papo com Misael Rodríguez sobre o novo trabalho da Paraquedas:
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| Misael Rodríguez: "Sair de Roraima era algo que eu já sentia há bastante tempo que precisava acontecer" |FOTO: Sthefany Martins |
PORTAL BOA VISTA - Como foi o processo de transformar oito anos de adaptação, saudade e sensação de deslocamento em quatro faixas? Teve alguma música que foi especialmente difícil ou dolorosa de escrever?
Misael Rodríguez - A verdade é que o processo de composição não foi doloroso. Acho que foi mais contemplativo. Como olhar pela janela de um ônibus em movimento e reconhecer paisagens que já ficaram para trás, mas que ainda continuam vivendo dentro da gente. Cada música foi surgindo como uma espécie de conversa comigo mesmo, uma reflexão constante sobre quem eu era, quem eu estava me tornando e tudo o que aconteceu no caminho. Mas se teve uma faixa que me fez parar, respirar e olhar para trás, foi “Retroceder”. Porque ela nasceu em um momento muito específico e estranho do mundo. Foi escrita em 2020, durante a quarentena, quando tudo parecia suspenso no tempo e todo mundo estava tentando entender o que fazer com o silêncio, com o medo e com a incerteza que a pandemia deixou. Lembro que nessa época também comecei a experimentar muito mais com sons diferentes daquilo que a Paraquedas vinha fazendo até então. O projeto tinha uma identidade muito mais próxima do pop punk, e “Retroceder” apareceu quase como uma ruptura natural disso. A música tinha outra atmosfera, outro peso, outra forma de respirar. E acho que isso aconteceu porque eu não estava apenas tentando escrever uma canção, mas tentando entender a mim mesmo no meio de todo aquele caos. A letra fala muito sobre recomeçar. Sobre parar por um instante, olhar para o passado com honestidade e aceitar tanto os acertos quanto os erros antes de seguir em frente. E apesar de eu não considerar que tenha sido uma música dolorosa de escrever, ela carrega muito a sensação de uma época complicada para todo mundo que viveu a pandemia da COVID-19. Tem algo muito humano nela… como se tivesse sido escrita no meio de um mundo que, pela primeira vez em muito tempo, foi obrigado a parar e refletir.
PBV - Vocês citam influências claras de Fresno e Twenty One Pilots. Quais elementos vocês trouxeram das referências e o que consideram mais marcante da “cara” da Paraquedas nesse trabalho?
M.R - Acho que tanto Fresno quanto Twenty One Pilots influenciaram muito mais a forma como a gente entende emoção dentro da música do que necessariamente tentar soar igual a eles. Da Fresno veio muito essa honestidade emocional, letras que parecem conversa, falando sobre saudade, relacionamentos, identidade e mudanças de uma forma muito humana. Isso influenciou bastante músicas como “Mi Espera” e “Falar de Amor”. Já o Twenty One Pilots influenciou muito a nossa liberdade artística: entender que uma banda pode experimentar sonoramente, criar universos através de videoclipes, estética e narrativa, sem precisar seguir uma fórmula tradicional do rock. E isso conversa muito com a própria história da Paraquedas, porque a banda nasceu praticamente como um duo criativo entre eu e o Simón. A gente ouvia muito Twenty One Pilots antes mesmo de sair da Venezuela, então sempre foi inspirador perceber que um vocalista e um baterista podiam construir algo tão grande sem precisar daquele formato clássico de banda com cinco pessoas no palco. A Paraquedas começou como power trio em 2018, passou por várias mudanças de formação durante e depois da pandemia, e hoje funciona ao vivo como um quarteto. Mas a essência continua sendo muito essa: transformar experiências reais em música, explorar diferentes atmosferas e entender que cada fase da banda pode ter sua própria identidade sonora e visual.
PBV - Como foi - e como está sendo - essa nova 'mudança de CEP'? Sair de Roraima para Santa Catarina mudou algo na forma de compor ou de enxergar essa história de migração?
M.R - Sair de Roraima era algo que eu já sentia há bastante tempo que precisava acontecer, não só para me superar como artista, mas também como pessoa. E não é algo contra Boa Vista ou contra Roraima, porque foi o lugar onde eu cresci, vivi minha adolescência e construí toda a minha trajetória musical até aqui. Mas em determinado momento comecei a sentir que já não existia mais aquele senso de desafio. Eu tinha muita vontade de conhecer novos horizontes e entender até onde a Paraquedas podia chegar fora dali. Acho que isso ficou muito forte depois das viagens que fiz em 2022 e 2023 como baixista da banda UN. Foi quando percebi como a música autoral recebe atenção em outras cidades e como existem espaços que realmente incentivam artistas independentes. E vir para Santa Catarina trouxe muito essa sensação de recomeço. Hoje a Paraquedas ainda é algo desconhecido aqui no sul, então de certa forma estou reconstruindo tudo do zero outra vez. Mas ao mesmo tempo existe uma sensação muito forte de possibilidade, porque aqui há público para o rock, há circulação e há oportunidade para artistas independentes conquistarem espaço. Em Boa Vista eu sentia que já tinha chegado num ponto onde não sabia mais como continuar escalando. Aqui, mesmo começando de novo, sinto exatamente o contrário: sinto que ainda existe muito caminho pela frente.
PBV - Qual mensagem ou sensação vocês mais gostariam que o público carregasse depois de ouvir o EP inteiro? Existe alguma faixa que vocês sentem que resume melhor toda a jornada contada no trabalho
M.R - Acho que a faixa que melhor resume toda essa jornada é justamente “Retroceder”. Porque ela fala muito sobre parar, olhar para trás e entender tudo o que foi vivido antes de continuar seguindo em frente. Tem essa sensação de reflexão, de recomeço e até de esperança no meio do caos. De certa forma, sinto que ela encerra o EP olhando para o passado, mas sem ficar preso nele. Como alguém que entende a própria história, aceita tudo o que viveu… e continua caminhando mesmo assim.



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