FRANCO SOARES| Quadrinista roraimense lança HQ contando história do Movimento Roraimeira

Obra envolve pesquisa documental, entrevistas e linguagem visual para preservar a memória cultural do estado e torná-la acessível a novas gerações


O quadrinista Franco Soares desenvolveu o projeto “Roraimeira: Vozes, Traços e Cores”, uma história em quadrinhos que documenta o Movimento Roraimeira e os artistas Zeca Preto, Neuber Uchôa e Eliakin Rufino. Contemplado no final de 2025 pela contrapartida municipal da Lei Aldir Blanc, via Prefeitura de Boa Vista, o trabalho reúne pesquisa documental, entrevistas e linguagem visual para preservar a memória cultural do estado e torná-la acessível a novas gerações, inclusive por meio de recursos para pessoas com deficiência visual.

A obra existe em duas versões: físico, com 500 exemplares impressos em formato A5, distribuídos gratuitamente em bibliotecas de escolas públicas, e uma webcomic com audiodescrição de cada página, textos alternativos e descrições textuais. Segundo Soares, a iniciativa integra um projeto maior, o “Roraima em Quadrinhos”, voltado a registrar trajetórias de pessoas que contribuíram para a construção da identidade local.

O Movimento Roraimeira surgiu no início da década de 1980, quando Roraima ainda era Território Federal. Por meio de música, poesia e literatura, Zeca Preto, Neuber Uchôa e Eliakin Rufino ajudaram a consolidar expressões artísticas ligadas à paisagem, à cultura e ao cotidiano roraimense.

A narrativa da HQ de Soares segue a linha do “jornalismo em quadrinhos” (saiba mais abaixo), alternando fatos históricos com memórias pessoais dos protagonistas, apresentando-os antes do reconhecimento público (como crianças, estudantes e trabalhadores) e mostrando como suas trajetórias se cruzaram com a busca do estado por uma identidade própria.

Em 2024, ao publicar uma caricatura dos três artistas em homenagem aos 40 anos do Trio Roraimeira, Soares foi contactado pela produtora Carol Uchôa. A imagem foi usada no show no Teatro Municipal. “Ali foi o ponto de partida desse projeto”, relatou o autor. “Perguntei ‘olha, o que vocês acharam?’. Claro que eles curtiram. Eu falei a gente podia transformar essa história em quadrinhos”.

O maior desafio, segundo o quadrinista, foi o prazo de seis meses. O processo envolveu pesquisa histórica, entrevistas, resgate de documentos e a adaptação de poesia, música e literatura para a linguagem sequencial. A paisagem de Roraima — Monte Roraima, Pedra Pintada, rios, lavrado e espaços de Boa Vista — aparece como elemento narrativo, não apenas como cenário. “Isso não é tão simples assim, organizar de uma forma em que os leitores pudessem entender desde o contexto histórico da época, lá no início de 1980”, disse Soares.

A acessibilidade digital foi incorporada desde o planejamento da versão web. A audiodescrição de páginas de quadrinhos exige decisões sobre ordem e conteúdo das informações visuais, para que façam sentido a quem não enxerga. Soares destacou que a obra busca criar uma ponte entre gerações: quem viveu o movimento pode reencontrar fatos e personagens; quem nasceu depois pode conhecer a origem de músicas e poemas que hoje fazem parte do imaginário local.

O projeto conta com versões físicas (500 exemplares distribuídos em biblitecas escolares) e digital

 

“Eu acho que foi um grande desafio, mas eu acho que a gente conseguiu produzir uma obra de impacto, histórica e pioneira aqui no estado de Roraima”, afirmou. E ele ressalta. “Esse estado é muito rico de histórias, de personagens e a gente precisa registrar isso, deixar isso como registro histórico. Eu digo que o que eu fiz foi fazer uma ponte entre gerações, usando os quadrinhos, a 9ª arte, levando isso para dentro das escolas, através dos quadrinhos, levando para os jovens, as novas gerações, conhecerem o que foi feito lá atrás e que veio a longo de mais de 40 e poucos anos, transformando a identidade cultural do estado de Roraima”.
 

Membro do Roraimeira e um dos homenageados, Neuber Uchôa recebeu a obra em quadrinhos com uma grata surpresa. Para o compositor ressalta, a arte tem o poder de alcançar todas as gerações, tanto no desenho quanto na música e na poesia.

“A ideia de retratar parte dessa história de mais de quatro décadas, em quadrinhos, é ‘dukaraima’! Franco foi minucioso e teve muito cuidado, respeito e afeto com o nosso trabalho e vai entregar um resultado lindo, tenho certeza. Isso representa um marco importante para documentar, registrar e distribuir o que nós plantamos, semeamos e estamos colhendo. Faz parte da colheita de um árduo trabalho de mais de quarenta anos”, disse Nêuber.

Neuber Uchôa e Franco: "A ideia de retratar parte dessa história de mais de quatro décadas, em quadrinhos, é ‘dukaraima’!"

 
O artista complementa. “Considero essencial, sobretudo para as novas e futuras gerações terem acesso a nossa história de forma didática, lúdica e verdadeira, uma vez que nós três (eu, Zeca Preto e Eliakin Rufino) fizemos parte dessa construção, junto com o Franco. Roraima merece esse carinho roraimeira ilustrado”.


O autor

Franco Soares: fazer quadrinhos é um sonho que o artista move desde a infância


Roraimense, Franco Soares é graduado como Bacharel em Sistemas de Informação, atuando como webdesigner, ilustrador, empreendedor e professor. Em 2015 uniu o conhecimento tecnológico com a habilidade de desenhista e lançou a plataforma Desenhando Arte, resgatando um sonho de infância ao se reinventar como ilustrador.

“Desde criança, eu sempre tive um sonho de trabalhar com quadrinhos. Só que fui pai muito jovem, aos 17 anos. Naquela época, sem internet, se eu quisesse trabalhar com quadrinhos, eu precisava sair daqui do estado”, comenta.

Ele dedicou-se ao karatê, participou de campeonatos mundiais e formou-se em sistemas de informação. O desenho permaneceu como hobby até 2015, quando produziu uma HQ institucional no Tribunal de Justiça. A partir daí, estudou a linguagem e descobriu o jornalismo em quadrinhos.

Como quadrinista idealizou o projeto Roraima em Quadrinhos - histórias de personagens que deram sua parcela de contribuição para o desenvolvimento do Estado. Antes de “Roraimeira”, Soares produziu “Marreta dos Velhos Carnavais”, sobre o avô Raimundo Soares, músico conhecido como “Marreta” que foi homenageado na Praça do Coreto.

Em 2020, lançou “Venezuela em Fuga” (2020), webcomic de 28 páginas sobre a crise migratória no extremo norte do Brasil, também contemplada pela Lei Aldir Blanc, contrapartida municipal por meio da Fundação de Educaçao, Turismo, Esporte e Cultura (FETEC).

Soares participou da Feira Roraimense de Quadrinhos de 2026 e acompanha o Círculo Amazônico de Quadrinhos, movimento que tem a missão de valorizar a produção na região norte do país para o maior número pessoas possíveis sob uma rede poderosa de conexão entre artistas e fãs.

“Estou chando esse momento sensacional. Agradeço muito ao Rhafa Porto, que é esse jovem artista aí dos quadrinhos aqui de Roraima. Ele criou personagens e usa o cenário local pra desenvolver as histórias dele. Ele tem feito um trabalho de divulgação incrível, abraçou os quadrinhos roraimenses e tá ligado com os artistas do norte. E eu tô achando sensacional esse movimento na região norte, o Circuito Amazônico de Quadrinhos. Eu acho que, cada vez mais novos artistas estão entrando, estão surgindo, estão tendo a oportunidade de mostrar a sua arte, de contar suas histórias. Isso é sensacional”.

Franco participou da edição deste ano da Feira Roraimense de Quadrinhos


Além disso, Franco trabalha em novos títulos dentro do projeto “Roraima em Quadrinhos”, focados em personagens que moldaram a história do estado. “Já estou trabalhando neles, amadurecendo, e também na linha do jornalismo em quadrinhos, contando histórias daqueles que fizeram isso acontecer desde lá atrás, até os dias mais atuais. E espero que também consiga isso, trabalhando, realizando meu sonho”.

  • Para saber mais sobre estes e outros projetos do artista, siga seu perfil no Instagram: @francosoaresrr.

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Confira o nosso bate-papo com Franco Soares:

PORTAL BOA VISTA — O que o motivou a transformar a trajetória do Trio Roraimeira e do Movimento Roraimeira por meio dos quadrinhos?

Franco Soares — Desde criança, eu sempre tive um sonho de trabalhar com quadrinhos. Só que fui pai muito jovem, aos 17 anos. Naquela época, sem internet, se eu quisesse trabalhar com quadrinhos, eu precisava sair daqui do estado e ir para Rio de Janeiro, São Paulo (os grandes centros). E então, mas com a responsabilidade como pai, eu não podia de forma alguma deixar meu filho aqui e a família. Então, eu preferi ficar. Também, desde cedo, eu me destaquei no esporte. Então, acabou que eu fui me destacando no karatê e me dediquei a isso. Cheguei a participar de dois campeonatos mundiais, sendo um no México, em 1991, outro na Itália, em 2007. Fui bronze no sul-americano de Mar del Plata, em 2003 e várias vezes pelo Brasil afora aí, competindo representando Roraima. E acabou que eu me formei em sistemas de informação na área tecnológica. Então o desenho virou hobby na verdade. Só que, em 2015, colegas de trabalho no Tribunal de Justiça fizeram uma proposta para mim. Chegaram com um roteiro pronto para fazer um quadrinhos com 15 páginas sobre gestão de bens móveis, usando como personagem os próprios colegas de trabalho do setor. E aí eu fiz e foi muito legal. O pessoal curtiu bastante. A partir daí, eu resolvi estudar quadrinhos. Então, já com a internet, eu fui atrás de cursos, comprei livros, conheci autores. Porque na minha visão, lá atrás, eu precisava criar um personagem ou tentar entrar nesse mundo, por exemplo, através da Marvel, DC e outras grandes companhias, ou ainda, no Brasil, os estúdios Maurício de Sousa. Só que, quando eu fui estudar quadrinhos, eu conheci uma outra vertente: o jornalismo em quadrinhos. Durante todo esse tempo, eu pensei ‘poxa, eu vou criar um personagem. Mas será que esse personagem vai dar certo?’. Eu sempre tive essa dificuldade. Mas, quando eu conheci o jornalismo em quadrinhos, percebi que ali seria um ponto em que eu podia trabalhar, contar histórias verdadeiras. Então, a primeira que eu fiz foi ‘Marreta dos velhos Carnavais’, contando a história do meu avô, Raimundo Soares, o ‘Marreta’. Ele já é falecido. Mas lá na década de 60, 70, ele tocava saxofone e se destacou tanto que hoje a Praça do Coreto, no Centro Cívico, leva o nome dele em homenagem justamente à época em que ele se destacou como músico aqui no Estado, quando ainda era Território Federal. De lá para cá, eu venho criando um projeto chamado ‘Roraima em Quadrinhos’, justamente para contar histórias de personagens ou pessoas que fazem que transformam esse Estado, que fazem isso acontecer. E o Roraimeira está nisso. E em 2024, eu fiz uma caricatura dos três artistas do Roraimera — Zeca Preto, Neuber Uchoa e Eliakin Rufino e postei na minha rede social, em homenagem aos 40 anos do Trio Roraimera. Daí marquei eles na postagem. E então, na tarde do dia do show de 40 anos do Roraimeira, que ocorreu no Teatro Municipal, a Carol Uchoa, produtora e filha do Neuber, viu a caricatura e me ligou dizendo ‘Franco, os meninos gostaram tanto da caricatura que estão perguntando se eles podem usar no show’. E eu ‘claro que pode usar! Eu fiz pra vocês’. E aí eu fui ao show e eu fiquei feliz da vida quando eles abriram o show com aquela caricatura enorme no palco. Ali foi o ponto de partida desse projeto, porque eu fui lá presencialmente com eles. Perguntei ‘olha, o que vocês acharam?’. Claro, eles gostaram muito. Curtiram, riram bastante e eu falei a gente podia transformar essa história em quadrinhos. Então a partir dali, eu plantei as sementes e fui amadurecendo ao longo do tempo. Quando foi no final de 2025, veio a Lei Aldir Blanc, contrapartida municipal da Fetec, pela Prefeitura de Boa Vista, e eu resolvi inscrever o projeto ‘Roraimeira: Vozes, Traços e Cores’. Fui contemplado e resolvi transformar isso em quadrinhos.

PBV — Quais foram os maiores desafios, sejam técnicos, artísticos ou do processo de pesquisa, ao traduzir a música, a identidade cultural e as paisagens de Roraima em traços e cores?

F.S — No meu modo de ver, o maior desafio na produção dessa obra foi o tempo. Porque, é claro, de 2024 para cá, eu vinha amadurecendo essa ideia, mas não trabalhei nela. Quando saiu o edital onde fui contemplado, no final de 2025, foram seis meses para fazer esse trabalho, tanto é que eu passei um pouquinho do prazo, porque realmente em seis meses fazer um trabalho como esse foi extremamente desafiador. Porque isso envolve pesquisa, resgate histórico, entrevistas, o desafio de transformar poesia, literatura e música em quadrinhos. Isso não é tão simples assim, organizar de uma forma em que os leitores pudessem entender desde o contexto histórico da época, lá no início de 1980, o que era o território de Roraima e o que foi se transformando ao longo do tempo e como eles foram construindo essa identidade cultural através de da arte. Isso foi um desafio enorme. E é claro, com a participação deles. Agradeço a eles e à produtora Carol Uchôa, que entenderam desde o primeiro momento a proposta, quando eu apresentei o trabalho, a ideia do trabalho. Eles entenderam de imediato e embarcaram nesse projeto com toda força. Isso ajudou bastante.

PBV — Qual sua expectativa quanto a contribuição dessa obra para a valorizações, difusão e manutenção da memória do Movimento Roraimeira junto a novas gerações?

F.S — A minha expectativa para esse projeto é enorme. Eu acho que foi um grande desafio, mas eu acho que a gente conseguiu produzir uma obra de impacto, histórica e pioneira aqui no estado de Roraima. Eu já tinha feito quadrinhos eu já tinha feito ‘Venezuela em fuga’ em 2020, também contemplado pela Lei Aldir Blanc, onde em 28 páginas eu falo sobre a crise migratória no extremo norte do Brasil, somente como webcomic. Mas essa agora, ‘Roraimeira: Vozes, Traços e Cores’, serão 500 edições em tamanho A5 que serão distribuídas gratuitamente nas bibliotecas de escolas públicas. E na internet, nós temos a webcomic, que foi pensada de forma acessível, a dar acesso às pessoas que têm dificuldade visual, como cegos e pessoas com dificuldade de visão. Lá você vai encontrar a audiodescrição de cada página. Então, isso é uma inovação. São poucas revistas em quadrinhos que, por meio de uma webcomic, que tem esse recurso de acessibilidade que nós nos preocupamos em colocar, exatamente porque a expectativa é que as pessoas que ainda não conhecem o movimento Roraimeira passe a conhecer e aqueles que conhecem desde o início reencontrem essa história e possam em uma obra entender melhor como isso tudo aconteceu, como esses artistas começaram lá atrás, aos vinte e poucos anos de idade, conseguiram, através da música, da poesia e da literatura, criar uma identidade cultural para o estado Roraima.

PBV — Há outros projetos semelhantes sendo pensados ou preparados, também com essa linguagem dos quadrinhos?

F.S — Tenho outros projetos em vista. Já estou trabalhando neles, amadurecendo, e também na linha do jornalismo em quadrinhos, também no mesmo projeto ‘Roraima em Quadrinhos’, contando histórias de personagens que fizeram isso acontecer desde lá atrás, até os dias mais atuais. Então, tem novos projetos vindo por aí. E espero que também consiga isso, trabalhando, realizando meu sonho, na verdade. Eu sempre quis trabalhar com quadrinhos, mas não tive a oportunidade de sair e buscar, para entrar nas grandes companhias, nas grandes agências, mas encontrei de uma outra forma, estudando quadrinhos encontrei o jornalismo em quadrinhos e percebi, assim como o Roraimeira percebeu, quantas histórias nós temos aqui para ser contadas. Esse estado é muito rico de histórias, de personagens e a gente precisa registrar isso, deixar isso como registro histórico. Eu digo que o que eu fiz foi fazer uma ponte entre gerações, usando os quadrinhos, a 9ª arte, levando isso para dentro das escolas, através dos quadrinhos, levando para os jovens, as novas gerações, conhecerem o que foi feito lá atrás e que veio a longo de mais de 40 e poucos anos, transformando a identidade cultural do estado de Roraima.

PBV — Como você está vendo esse movimento de valorização cada vez mais forte do artista de quadrinhos em Roraima, sobretudo com essa iniciativa do Círculo Amazônico de Quadrinhos?

F.S — Participei da edição 2026 da Feira Roraimense de Quadrinhos. E eu tô achando esse momento sensacional. Agradeço muito ao Rafha Porto, que é esse jovem artista aí dos quadrinhos aqui de Roraima. Ele criou personagens e usa o cenário local pra desenvolver as histórias dele. Eu já vou mais pro jornalismo em quadrinhos, mas o Rafha tem feito um trabalho de divulgação incrível, abraçou os quadrinhos roraimenses e tá ligado com os artistas do norte. E eu tô achando sensacional esse movimento na região norte, o Circuito Amazônico de Quadrinhos. Eu acho que, cada vez mais novos artistas estão entrando, estão surgindo, estão tendo a oportunidade de mostrar a sua arte, de contar suas histórias. Isso é sensacional.

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