LILYANE LOPES| Maestrina de Roraima é empossada hoje na Academia Amazonense de Música

Cerimônia ocorre nesta quarta-feira (26), no Teatro Amazonas, em Manaus, e reconhece atuação de Lilyane Lopes na ópera e na música na Amazônia


Um dos principais nomes de Roraima relacionados à ópera, a maestrina, compositora e instrumentista Lilyane Lopes toma posse nesta quarta-feira (26) como Membro Honorária da Academia Amazonense de Música, em cerimônia no Teatro Amazonas, em Manaus. O reconhecimento ocorre em razão de sua trajetória na música e, especialmente, de sua atuação frente à Companhia de Ópera de Roraima, onde participa da criação e consolidação da cena operística do estado.

Diretora musical da Companhia de Ópera de Roraima, Lilyane tem encabeçado projetos que estabeleceram marcos na produção lírica roraimense. Entre eles estão a primeira ópera apresentada no estado, em 2019; o primeiro balé de repertório com orquestra ao vivo, em 2024; o primeiro Festival de Ópera de Roraima, em 2025; e a primeira ópera composta em Roraima, “Fantópera: A Caipora”, cuja estreia mundial ocorreu em 2026 (saiba mais abaixo).

Para a maestrina, a posse no principal teatro histórico do Amazonas representa também o reconhecimento da produção artística desenvolvida na região Norte. “Estar no palco do Teatro Amazonas para essa posse é o reconhecimento de que o trabalho que realizamos na Região Norte alcançou o mais alto nível de excelência artística. O Teatro Amazonas é o coração da ópera na nossa floresta, e receber este título aqui chancela a nossa missão como realizadores”, afirmou Lilyane.

Segundo ela, a homenagem também reforça uma trajetória marcada pela criação de projetos inéditos em Roraima. Lilyane considera que a atuação desenvolvida no estado contribui para ampliar a presença da música clássica produzida na Amazônia no cenário nacional. “Para a música do Norte, esse momento é um manifesto de que somos capazes de criar, compor, produzir e exportar arte clássica da melhor qualidade, unindo Roraima e Amazonas na vanguarda da cultura nacional”, declarou.


Trajetória ligada à música na Amazônia

A carreira de Lilyane inclui a regência de diversos outros espetáculos temáticos, concertos sinfônicos e montagens de grande porte na região Amazônica



Lillyane Lopes consolidou sua base musical como pianista, graduada pela Escola de Música do Estado de Roraima. Conta com licenciatura em Música, com habilitação em violino, pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), e pós-graduação em Ensino da Arte pela UNINTER, tendo integrado o corpo de instrumentistas de diversas orquestras do Amazonas e Roraima, atuando como chefe de naipe, spalla e regente.

Radicada em Boa Vista, Lilyane Lopes assumiu a vanguarda do movimento sinfônico e lírico local, construindo uma trajetória marcada pela atuação como regente, violinista e pianista em importantes orquestras da região. No Amazonas foi regente assistente da Orquestra Jovem da Floresta Amazônica; pianista da Orquestra Jovem Encontro das Águas; violinista da Orquestra Sinfônica de Manaus e da Orquestra Barroca da UEA.  

Já em Roraima, atuou como spalla e regente assistente da Orquestra Sinfônica de Roraima; maestrina da Orquestra Sinfônica da Escola de Música de Roraima (EMUR) e da Orquestra Jovem Sesc Roraima. Desde 2017, é co-fundadora, diretora musical e regente titular da Companhia de Ópera de Roraima

Lilyane conta que sua relação com a música começou ainda na infância, em Manaus, quando tinha 7 anos. Segundo ela, um encontro com a pianista Jerusa Mustafa foi determinante para sua escolha profissional. A formação posterior incluiu estudos com a professora de piano Dorly da Silva Guerra e experiências com a violinista Margarita Chereva. Outro nome apontado pela maestrina como decisivo em sua trajetória foi o maestro José Antônio Abreu, fundador do El Sistema, programa venezuelano de educação musical. O terceiro momento foi o chamado da própria Amazônia.

“Perceber que o nosso povo tinha sede de alta cultura me moveu a fundar, ao lado do meu esposo Juan, a Companhia de Ópera de Roraima. Ver o público nos receber de braços abertos na floresta foi o clique decisivo para eu entender que a minha missão de vida era fincar a bandeira da ópera e da regência na nossa região”, afirmou.
 

Companhia estabelece marcos em Roraima

Lilyane rege a Companhia de Ópera de Roraima na fantópera "A Caipora"


A primeira ópera apresentada em Roraima pela companhia, “Pagliacci", do italiano Ruggero Leoncavallo”, ocorreu em 2019. Cinco anos depois, em 2024, o grupo levou ao palco do Teatro Municipal “Coppelia”, o primeiro balé de repertório do estado acompanhado por uma orquestra ao vivo. Em 2025, veio o primeiro Festival de Ópera de Roraima, que foi um marco histórico na cultura do Estado, tendo casa lotada todas as noites do evento, além de muitas pessoas de fora do Estado (e do país) que assistiram às transmissões ao vivo.

Mais recentemente, em 2026, a companhia apresentou a fantópera “A Caipora - Ópera Buffa de Fantoches”, apontada como a primeira ópera composta em Roraima. A obra é assinada por Lilyane Lopes e pela filha, Nickole Pineda (diretora cênica da companhia), utilizando elementos da cultura e das lendas amazônicas em uma produção de caráter operístico. Para a maestrina, os projetos também funcionam como espaços de formação profissional.

Fantópera "A Caipora", no Teatro Municipal



“A companhia funciona como uma escola viva. Preparamos músicos, cantores e técnicos locais em cada projeto, vendo o futuro da nossa arte florescer na prática. O resultado desse trabalho é ver o público de Roraima lotar os teatros, orgulhoso de ver a sua identidade, suas lendas e seus artistas brilhando no palco”


Distância e logística estão entre os desafios

Ópera "La Serva Padrona", no Teatro Municipal 


Em Roraima, a produção de espetáculos de música de concerto, sobretudo a ópera, envolve dificuldades relacionadas à distância geográfica e à disponibilidade de recursos específicos. Segundo Lilyane, o deslocamento de cenários, figurinos e profissionais especializados representa um dos principais obstáculos para a produção na região.

Assim, Lilyane ressalta que companhia busca reduzir essas limitações com uma estrutura própria de formação e produção. Na sede da instituição, músicos e cantores locais são preparados para participar dos espetáculos, enquanto profissionais de outras regiões são convidados para integrar determinadas produções. “Quando faltam recursos materiais, nós transbordamos criatividade, como fizemos ao compor a ópera ‘A Caipora’, unindo as nossas lendas nativas à técnica clássica”, afirmou.

A maestrina também citou parcerias com instituições e iniciativas que, segundo ela, contribuíram para a produção dos projetos, entre elas o Teatro Municipal de Boa Vista, a Fundação de Educação, Turismo, Esporte e Cultura (Fetec), a EntreÓpera, o Curso de Música da Universidade Federal de Roraima (UFRR), a Secretaria de Estado da Cultura e Turismo (Secult) e a Companhia de Ópera de São Paulo. “Tais parcerias mostram que o Norte se apoia, se conecta com o Brasil e cria sua própria grandeza”.


Integração entre Roraima e Amazonas

Concerto Lirico-Sinfônico da Companhia de Ópera de Roraima no Teatro Amazonas (2025)


Com o ingresso na Academia Amazonense de Música, Lilyane afirma que pretende ampliar o intercâmbio entre profissionais dos dois estados. A expectativa é fortalecer a circulação de músicos, cantores, técnicos e produções entre Roraima e Amazonas.

“Vejo este momento não apenas como uma honraria pessoal, mas como o fortalecimento de uma ponte cultural definitiva entre o Amazonas e Roraima. Para a Companhia de Ópera de Roraima, esse laço institucional vai intensificar o intercâmbio de músicos, cantores e técnicos, permitindo a circulação dos nossos espetáculos e criando um corredor lírico na nossa região”, afirmou.

Para a Companhia de Ópera de Roraima, o próximo passo é avançar na consolidação da programação operística no estado. Entre os projetos previstos está a preparação do 2º Festival de Ópera de Roraima e a criação de novas produções baseadas na identidade cultural amazônica.

“Minha contribuição à música na Amazônia ganha agora uma nova força e uma responsabilidade ainda maior. Juntos, com a chancela desta Academia e o apoio dos nossos parceiros, vamos continuar descentralizando a ópera no Brasil, provando que a floresta é, e continuará sendo, um solo fértil de alta cultura, inovação e excelência artística”.

ANOTE — A cerimônia de posse ocorre nesta quarta-feira (26), no Teatro Amazonas, em Manaus. Mais informações sobre a Companhia de Ópera de Roraima, seus projetos e programação podem ser acompanhadas pelo perfil @roraimaopera, no Instagram.


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Confira a entrevista que fizemos com a maestrina Lilyane Lopes sobre sua trajetória artística e as perspectivas da Companhia de Ópera de Roraima para a cultura do Estado:

Lilyane Lopes: uma trajetória inteira dedicada à arte na Amazônia


PORTAL BOA VISTA - Como a senhora avalia a importância de ser empossada Membro Honorária da Academia Amazonense de Música no Teatro Amazonas, e o que esse reconhecimento representa para a sua trajetória artística e para a música produzida no Norte do Brasil?

Lilyane Lopes - Estar no palco do Teatro Amazonas para essa posse é o reconhecimento de que o trabalho que realizamos na Região Norte alcançou o mais alto nível de excelência artística. O Teatro Amazonas é o coração da ópera na nossa floresta, e receber este título aqui chancela a nossa missão como realizadores.Para a minha trajetória como instrumentista, compositora e Diretora Musical da Companhia de Ópera de Roraima, representa a consolidação de marcos históricos, como as primeiras óperas e balés com orquestra ao vivo e primeira ópera composta em Roraima que erguemos no nosso estado. Para a música do Norte, esse momento é um manifesto de que somos capazes de criar, compor, produzir e exportar arte clássica da melhor qualidade, unindo Roraima e Amazonas na vanguarda da cultura nacional.


PBV - Quais foram os momentos decisivos em sua trajetória que acredita que a levaram a se dedicar à ópera e à regência na Amazônia?

L.L. - Houve três momentos cruciais. O primeiro foi na infância, aos 7 anos, quando subi as escadas de uma sala em Manaus e ouvi a Jerusa Mustafa ao piano; deitar a cabeça no colo dela e ver aquelas mãos se moverem decidiu o meu destino na música.O segundo momento veio com a maturidade, ao beber da fonte de mentores extraordinários. A começar pela minha querida professora de piano, Dorly da Silva Guerra, que com paciência e sabedoria lapidou o meu talento; passando pelo rigor técnico e sensibilidade da violinista Margarita Chereva; até o imensurável Maestro José Antônio Abreu, que me ensinou que a regência é, acima de tudo, uma missão de transformação social através da arte.E o terceiro momento foi o chamado da própria Amazônia. Perceber que o nosso povo tinha sede de alta cultura me moveu a fundar, ao lado do meu esposo Juan, a Companhia de Ópera de Roraima. Ver o público nos receber de braços abertos na floresta foi o clique decisivo para eu entender que a minha missão de vida era fincar a bandeira da ópera e da regência na nossa região.


PBV - À frente da Companhia de Ópera de Roraima, a senhora ajudou a consolidar a cena operística no estado. Qual é o papel da companhia na construção dessa identidade operística roraimense que já tem apresentado bons resultados?

L.L. - O papel da Companhia tem sido o de quebrar barreiras e mostrar que a alta cultura pertence a Roraima. Nós não estamos apenas encenando espetáculos; estamos construindo uma identidade operística roraimense a partir de três pilares: o pioneirismo, a formação de novos talentos e a nossa própria voz.Quando realizamos a primeira ópera do estado em 2019, o primeiro balé com orquestra ao vivo em 2024, e agora, em 2026, com a ópera "A Caipora", provamos que a Amazônia pode e deve produzir suas próprias obras clássicas. A Companhia funciona como uma escola viva: preparamos músicos, cantores e técnicos locais em cada projeto, vendo o futuro da nossa arte florescer na prática. O resultado desse trabalho é ver o público de Roraima lotar os teatros, orgulhoso de ver a sua identidade, suas lendas e seus artistas brilhando no palco.

Lilyane e Juan Alexis: "Perceber que o nosso povo tinha sede de alta cultura me moveu a fundar, ao lado do meu esposo, a Companhia de Ópera de Roraima"


PBV - Quais têm sido os maiores desafios de produzir ópera e concertos de alto nível em Roraima, e como a Companhia de Ópera tem superado as limitações estruturais e logísticas típicas da região Norte?

L.L. - Os nossos maiores desafios em Roraima sempre foram a distância geográfica e a escassez de recursos específicos para o mercado da ópera e da música clássica. Trazer grandes cenários, figurinos ou solistas de fora do eixo tradicional custa caro e a logística na Amazônia é complexa.Mas a Companhia de Ópera de Roraima supera isso de uma forma linda: nós criamos a nossa própria estrutura na sede da nossa Companhia. É lá, no nosso espaço, que transformamos cada projeto em uma escola viva. Nós formamos os nossos próprios músicos, preparamos os nossos cantores líricos e qualificamos técnicos locais. E para garantir o mais alto nível artístico, nós também trazemos músicos solistas de fora para enriquecer nossos espetáculos. Quando faltam recursos materiais, nós transbordamos criatividade, como fizemos ao compor a ópera A Caipora, unindo as nossas lendas nativas à técnica clássica.Nós superamos a logística unindo propósitos: a dedicação da minha família, o apoio incondicional do público de Roraima e as parcerias fantásticas, como esta com a Academia Amazonense de Música e o apoio fundamental de instituições como a Companhia de Ópera de São Paulo, que mostra que o Norte se apoia, se conecta com o Brasil e cria sua própria grandeza. Além disso, vale destacar também o apoio do Teatro Municipal de Boa Vista, Fetec, EntreÓpera, o Curso de Música da UFRR e a Secult, que foram fundamentais para o nosso trabalho. 

"Com a chancela da Academia Amazonense de Música e o apoio dos nossos parceiros, vamos continuar descentralizando a ópera no Brasil"


PBV - Com seu ingresso na Academia Amazonense de Música, que novos horizontes a senhora enxerga para a Companhia de Ópera de Roraima e para a continuidade de sua contribuição à música e à ópera na Amazônia?

L.L. - O meu ingresso na Academia Amazonense de Música abre horizontes extraordinários de integração e expansão. Vejo este momento não apenas como uma honraria pessoal, mas como o fortalecimento de uma ponte cultural definitiva entre o Amazonas e Roraima.Para a Companhia de Ópera de Roraima, esse laço institucional vai intensificar o intercâmbio de músicos, cantores e técnicos, permitindo a circulação dos nossos espetáculos e criando um corredor lírico na nossa região. Olhando para o futuro, o horizonte que enxergo é o da consolidação: avançamos entusiasmados rumo ao nosso Segundo Festival de Ópera e à criação de novas produções que ecoem a nossa rica identidade cultural.Minha contribuição à música na Amazônia ganha agora uma nova força e uma responsabilidade ainda maior. Juntos, com a chancela desta Academia e o apoio dos nossos parceiros, vamos continuar descentralizando a ópera no Brasil, provando que a floresta é, e continuará sendo, um solo fértil de alta cultura, inovação e excelência artística.



 

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